Foi a primeira coisa que passou pela minha mente quando vi essa imagem. Livre associação ?
Achei no No Liquidificador.
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Grandes homens se destacam muitas vezes pelo pioneirismo e ousadia de seus feitos. Falar sobre o que Freud e Jung realizaram é desnecessário. Suas obras romperam paradigmas e criaram escolas que perduram sólidas até nossos dias, apesar das inúmeras críticas que ainda recebem, seja do meio acadêmico, seja de outros profissionais que não compartilham de suas idéias. A história de sua relação mestre-discípulo é notória, bem como os acontecimentos que a corroeram e por fim ocasionaram o rompimento definitivo da cooperação entre os dois analistas.
Para jogar mais luz nestes fatos, será lançado em breve nas terras tupiniquins A dangerous method (Um método perigoso), filme do diretor canadense David Cronenberg que conta sobre o início da relação entre Freud e Jung, mais o envolvimento deste último com uma de suas pacientes, a russa Sabina Spielrein. Lembrando que este não é o único filme que fala do envolvimento de Jung com Sabina, vide Jornada da Alma. No entanto, este é o primeiro onde a participação de Freud é retratada de forma mais ativa (como de fato aconteceu), sua cooperação com Jung e sua reprovação ao envolvimento deste com a jovem paciente.
O rompimento entre os dois médicos causou feridas que até hoje não cicatrizaram, ardendo forte no íntimo de muitos terapeutas por todo o mundo. Os adeptos de suas teorias muitas vezes as defendem com a paixão de um torcedor de futebol. Herr Freud e Herr Jung certamente reprovariam tal comportamento.
Para saber mais:
BYINGTON, Carlos Amadeu Botelho. FREUD e JUNG: O que a Emoção não Deixou Reunir. Disponível aqui.
Todos sabemos do potencial que a internet tem para divulgar informação e lançar moda. Como usuário das redes sociais, me deparo diariamente com toda a sorte de videos, fotos, músicas e o que mais for possível ser criado por alguem que domine basicamente um computador e tenha algum tempo sobrando.
Nada de errado com isso; é a cultura da internet que está mudando e temos que nos adaptar. Porém, a rede não é só diversão (isso é para você que passa o dia inteiro no “Fêice” compartilhando imagens, viu ?). A web é terreno fértil para entendermos mais como nós mesmos estamos mudando nosso comportamento e a forma como interagimos com os outros. Já falei sobre isso em posts anteriores aqui e aqui, caso o leitor queira saber mais sobre esse assunto. O bate-papo hoje é sobre a moda, tão velha (???) quanto as próprias redes sociais, de dizer que tem Transtorno Bipolar em sites como Twitter, Facebook e o quase finado (?) Orkut. Vejam alguns exemplos abaixo. Volto em seguida.
Fonte: Twitter
Fonte: Comunidade “Sou muito bipolar” do Orkut
Fonte: Facebook
Estes foram apenas alguns pequenos exemplos. Basta dar um Search utilizando palavras-chave como “bipolar” ou “sou bipolar” na rede social de sua preferência e o leitor encontrará centenas (quiçá milhares) de usuários que estejam “sofrendo” desta doença. Será que eles realmente sabem que transtorno é esse ? A julgar pela amostragem, acredito que não.
O Transtorno Bipolar (TB), também conhecido como Psicose Maníaco-Depressiva, é uma patologia grave que causa sofrimento ao indivíduo e a quem está ao seu redor. Sendo catalogada no CID-10 sob o código F.31, ela causa mudanças incomuns; num momento a pessoa apresenta uma elevação do humor e aumento da energia e da atividade (hipomania ou mania) e em outras, de um rebaixamento do humor e de redução da energia e da disposição para fazer as coisas (depressão). Pacientes que sofrem somente de episódios repetidos de hipomania ou mania são classificados como bipolares. Esta é a definição que a Organização Mundial de Saúde nos dá para este transtorno. Mas vamos mergulhar um pouco mais nisso.
Quais são os sintomas do Transtorno Bipolar ?
Quem sofre de TB pode ter episódios de mania, episódios depressivos ou mistos. Um episódio misto abarca tanto sintomas maníacos como depressivos. Esses episódios causam sintomas que podem durar uma ou duas semanas, talvez até mais. Complicado ? É, um pouco. Vamos continuar então.
Os episódios maníacos costumam ser intensos, trazendo fortes mudanças de comportamento, como:
Já os episódios depressivos podem manifestar os seguintes sintomas:
Difícil de entender ? Que tal um filme para ajudar ? Hollywood vez ou outra nos brinda com produções que ilustram de forma interessante como são alguns transtornos mentais. Ainda que as películas tenham lá sua carga de dramaticidade, romance e exageros, elas podem servir pra nos mostrar o ser humano que existe por trás da doença.
No filme “Mr. Jones” (EUA, 1993), o personagem principal que também dá nome à produção (interpretado pelo ator Richard Gere), é um caso de TB com quase todos os sintomas citados anteriormente. Ainda que ele aparente ter apenas uma personalidade “prá frente”, na verdade, está em grande sofrimento. Entre situações que beiram a comédia, podemos ver como os episódios maníacos de Mr Jones podem colocar até sua vida e a de terceiros em risco.
Fonte: Twitter
As causas do Transtorno Bipolar ainda não estão claramente definidas. Sabe-se que qualquer pessoa pode desenvolver a doença e que os primeiros sintomas aparecem entre o final da adolescência e o início da idade adulta. Se não tratada de maneira adequada, o TB pode se cronificar, acompanhando o indivíduo por toda a sua vida. O diagnóstico também não é simples, pois muitas pessoas podem ter a doença por anos sem ninguém saber. Isso ocorre porque o TB pode se assemelhar à diferentes patologias, como a depressão e até, em alguns casos, com a esquizofrenia. Além disso, pessoas que sofrem de TB apresentam outros problemas de saúde como drogadição, transtornos de ansiedade, cardiopatias e obesidade, o que pode prejudicar o diagnóstico adequado.
Ainda que não exista uma cura difinitiva para o TB, ele pode ser controlado, fazendo com que o portador possa sim ter uma vida normal. Existem diferentes tipos de medicação que podem ajudar, desde que devidamente prescritos por um psiquiátra. Paralelamente, o acompanhamento com um psicólogo pode incrementar o tratamento, ajudando o indivíduo a entender o porque de seu comportamento, aprender como identificar e administrar os sintomas e assim retomar o controle de sua vida. Também pode ajudar na relação com os amigos e familiares, muitas vezes convidando estes a participar de forma ativa no processo terapêutico.
Como podemos ver, entre aquilo que alguns internautas acham que são e aquilo que o TB realmente é, existe uma diferença considerável. Longe de mim querer ditar regras de como as pessoas devem agir na sua vida online ou offline; cada um sabe (ou deveria saber) o que é melhor para si. Penso que certas pessoas acreditam que exista algum tipo de glamour em sofrer de um transtorno mental e nada mais cool do que dizer isso num perfil de rede social. Talvez a grande maioria faça isso apenas para chamar a atenção, fazer um drama, atrair mais pessoas. Talvez alguém realmente sofra da doença e não saiba muito bem o que tem que fazer. Como tudo que vira modinha, o TB ficou banalizado ao ponto de muita gente achar que a doença não existe e não passa de “frescura”, “falta de sexo”, “carência” e outras sandices que escuto/leio por aí. Evidentemente este post não disse tudo sobre o Transtorno Bipolar; mas se ele ao menos tiver aguçado sua curiosidade em querer saber um pouquinho mais sobre o assunto, ou feito você pensar “Ah, esse cara só falou $#$%#, vou consultar um profissional ao vivo e tirar minhas dúvidas”, minha missão de hoje foi cumprida.
Bis bald ! ![]()
Para saber mais:
DALGALARRONDO, Paulo. Psicopatologia e semiologia dos transtornos mentais. Porto Alegre: Artes Médicas Sul. 2000. 271pg.
DEL PORTO, José Alberto. Conceito e diagnóstico. Rev. Bras. Psiquiatr., São Paulo, 2011 . Available from <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1516-44461999000500003&lng=en&nrm=iso>. access on 16 Dec. 2011. http://dx.doi.org/10.1590/S1516-44461999000500003
LIMA, Maurício Silva de et al . Epidemiologia do transtorno bipolar. Rev. psiquiatr. clín., São Paulo, 2011 . Available from <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0101-60832005000700003&lng=en&nrm=iso>. access on 16 Dec. 2011. http://dx.doi.org/10.1590/S0101-60832005000700003.
USA. National Institut of Mental Health. Bipolar Disorder. Disponível em: http://www.nimh.nih.gov/health/publications/bipolar-disorder/complete-index.shtml
Imagens: Google Imagens
Sentir um pouco de ansiedade em determinados momentos não é ruim. A ansiedade pode ser benéfica, pois em situações normais serve de alerta aos perigos e situações que podem gerar problemas, fazendo com que fiquemos em alerta e tomemos providências para enfrentar as adversidades ou fugir delas, caso seja necessário. No entanto, o excesso de ansiedade pode se transformar em doença quando uma pessoa atribui a ela motivos que não se enquadram nos citados anteriormente. E quais motivos são esses ? Conflitos familiares; sobrecarga de trabalho; preocupação com aparência física; etc. A lista pode ser longa, pois nos tempos atuais tudo pode servir de “desculpa” para ficar mais ansioso...até a comida !
O ato de comer, além de fundamental para a nossa sobreviência, também é um ato de prazer. Levar o alimento à boca, sentir o sabor, a consistência e seu aroma pode provocar um turbilhão de sensações que vão da saciedade até o relaxamento. E aí que mora o perigo. Pessoas ansiosas muitas vezes exageram quando comem. Se comem demais, engordam. Se engordam, ficam incomodadas e ansiosas por não estarem satisfeitas com sua forma física. E aí, o que fazem ? Comem mais para relaxar e diminuir a ansiedade. Tudo vira um círculo vicioso, pois a pessoa acaba desenvolvendo uma crença inadequada de que a comida será a solução dos problemas.
Abaixo seguem algumas dicas simples para não deixar que a ansiedade atrapalhe suas refeições:
Está precisando de ajuda ? Consulte sempre um profissional de saúde. Quando bem orientadas, mudanças simples podem acarretar ganhos enormes no futuro. Invista em você !
Para saber mais:
Ambulatório de Bulimia e Transtornos Alimentares do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da USP. Transtornos Alimentares. Disponível em: http://www.ambulim.org.br/transtornos_alimentares.php
Conselho Federal de Nutricionistas. Dez passos para uma alimentação saudável. Disponível em: http://www.cfn.org.br/eficiente/repositorio/Comunicacao/Material_institucional/164.pdf
Be Aware of the Effects of How & What You Eat: 10 Eating Habits that Increase Chances of Anxiety & Panic Attacks. Disponível em: http://kickpanicaway.com/CauseOfPanicAttacks/10eating-habits.php
Psychological Consequences Of Being Overweight. Disponível em: http://www.mentalhelp.net/poc/view_doc.php?type=doc&id=5913&cn=219
O post de hoje não tratará de Psicologia, mas sim de um assunto que também é bem sério. Como sabem, atualmente faço especialização em Saúde da Família, curso que me dá lastro na prática diária com grupos de Promoção da Saúde. Temos uma disciplina chamada Suporte Básico de Vida e Socorro de Emergência e, como o nome diz, apresenta conteúdo relacionado a procedimentos de emergência e primeiros socorros. Pois bem, estudando o conteúdo, li que a Sociedade Brasileira de Cardiologia publicou em 2010 novas diretrizes de emergências e ressucitação após Parada Cardíaca. A instituição fez uma atualização do que já se sabia sobre como evitar a morte de uma vítima de infarto, com a ajuda de massagem cardíaca e o uso de desfibriladores, entre outras coisas. Bom, até aí, para mim, nenhuma novidade bombástica. Mas o que me chamou a atenção enquanto estava estudando foi uma referência a um vídeo de divulgação da American Heart Association, mostrando que o ritmo da massagem cardíaca é parecido com o da música “Staying Alive”, do grupo Bee Gees. Confesso que li o texto duas vezes para ter certeza do que meus olhos estavam mirando. Claro que corri para o Google e fui pesquisar sobre essa história. E o resultado ? Bom, veja abaixo:
De acordo com o video, caso uma pessoa tenha uma parada cardíaca, você deve ligar imediatamente para o número de emergência (no Brasil temos o 192, certo ?) e em seguida realizar o procedimento de massagem de acordo com o ritmo da música até que a equipe de paramédicos chegue no local. A peça é uma iniciativa bem humorada que visa, além de informar, arrecadar fundos para a American Heart Association. Para saber mais, visite o site da campanha aqui.
Bis bald ! ![]()
O termo persona é derivado da palavra latina equivalente a máscara, e se refere às máscaras usadas pelos atores no teatro grego clássico para dar significado aos papéis que estavam representando.
De acordo com a Psicologia Analítica, persona é o arquétipo associado ao comportamento de contato com o mundo exterior, necessário à adaptação do indivíduo às exigências do meio social onde vive. É a maneira que cada sujeito se mostra ao mundo, é o caráter que assumimos; através dela nos relacionamos com os outros. A persona inclui os papéis sociais, as roupas e o estilo de expressão pessoal. Possui dois aspectos, um positivo e outro negativo. O positivo está associado à possibilidade de adaptação do sujeito ao seu meio social. O aspecto negativo surge quando o Eu se identifica com a persona, fazendo com que a pessoa se distancie e desconheça sua real personalidade, a alma.
Enough said, quero divagar um pouco mais sobre esta história de máscara para chegar a um ponto definido: Inflação Psíquica. Complicou ? Tudo bem, eu explico, citando Emir Calluf:
“É o estado em que o indivíduo ultrapassa seus limites, ocupa uma extensão que não lhe compete, apropriando-se de qualidade e conteúdos situados além de suas fronteiras” (CALLUF, 1969, p.118).
Sabe aquele seu chefe que já foi tenente do exército e acha que ainda continua no quartel ? Ou talvez tenha ouvido falar daquele profissional que trabalhou por 20 anos na mesma empresa como executivo, com todas as mordomias e status e, depois que se aposenta (ou é demitido) acha que ainda é importante ou que pode continuar carregando o “sobrenome” da empresa.. Os exemplos são inúmeros e eu poderia enlencá-los por vários posts.
Estes exemplos citados mostram como pessoas podem ser dominadas por suas personas, abafando o indivíduo por trás da máscara. Tendem a se ver apenas nos termos superficiais de seus papéis sociais e de sua fachada.
Podemos amplificar a discussão se adentrarmos outros territórios, como por exemplo o dos workaholics. Imagine um sujeito que:
1- tem uma compulsão desenfreada pelo trabalho;
2- as vidas profissional e pessoal não estão mais delimitadas;
3- vê a realidade apenas através do trabalho.
Tudo o que ele faz, faz como mais uma obrigação, mais uma tarefa. Amigos, família, saúde, lazer. São apenas tarefas a serem cumpridas. Lembra do executivo que citei como exemplo no início do texto ? Então, imagine ele sendo também um workaholic ? Triste. E são estas pessoas que aparecem depois nos consultórios tentando entender como deixaram que suas vidas tomassem tal direção.
Bom, comecei o post falando de persona e parece que este conceito acabou tomando um viés negativo, como se ter uma máscara fosse algo ruim, falso. Não, isso não é verdade.
A persona é uma necessidade tanto para proteger nossa intimidade contra a intrusão do mundo exterior como para nos adaptarmos a ele. Esta máscara que todos possuímos não nos transforma em personagens individuais, mas sim coletivos. Através da persona, conseguimos corresponder às exigências e opiniões do meio e dos outros indivíduos que nos cercam. No desenvolvimento do ego, a persona se diferencia do mesmo assumindo um caráter de complexo, porém, mantendo-se intimamente ligado ao ego. A persona “assume sua forma” no contato com a consciência coletiva. Como máscara, ou máscaras, a persona vai possibilitar a inserção saudável do individuo que se forma na esfera social. (JUNG, 1967).
Costumamos nos comportar de acordo com as expectativas das outras pessoas.
Isto fica evidente em determinadas instituições, como a família, a universidade ou a empresa em que trabalhamos. Situações diferentes requerem atitudes distintas. Estas atitudes podem ser latentes e inconscientes e ainda assim atuarem de maneira a orientar uma pessoa para que ela se porte de certa maneira em determinada situação. Sempre que uma atitude for chamada a atender uma exigência do ambiente, mais ela se fortalecerá como traço de caráter de um sujeito, tornando-se cada vez mais habitual. Se o ambiente exige constantemente determinadas posturas e atitudes, estas contribuirão significantemente para que o ego possa se identificar com um determinado papel social, fazendo com que o indivíduo se apegue total ou parcialmente à persona que o meio exige (STEIN, 2006).
O desenvolvimento adequado da persona, por outro lado, possibilita que o ego experimente o mundo de uma forma saudável, sem que a coletividade consciente prejudique a evolução desse ego. Assim, a persona irá proteger o ego e a psique das diversas forças e atitudes sociais que invadem cada ser humano. Sobre isto, James Hall diz:
A persona é também um veículo para a transformação do ego: o conteúdo inconsciente pode ser primeiramente vivenciado através de um papel e, mais tarde, integrado ao ego como parte de sua própria identidade funcional tácita. (HALL, 2000, p.88).
É importante termos ciência que desenvolver as personas é fudamental para a saúde mental. Porém é igualmente fundamental saber qual máscara usar, de acordo com o meio no qual estamos inseridos. A máscara certa para o momento certo: você conhece a sua ?
Para saber mais:
CALLUF, Emir. Sonhos, Complexos e Personalidade. 1a. ed. São Paulo : Mestre Jou. 1969. 302p.
HALL, James A. Jung e a interpretação dos sonhos: manual de teoria e prática. Tradução: Álvaro Cabral. 12ºed. São Paulo: Cultrix. 2000. 160p.
JUNG, Carl Gustav. Tipos Psicológicos. Tradução: Álvaro Cabral. 1ºed. Rio de Janeiro: Zahar. 1967. 561p.
STEIN, Murray. Jung: o mapa da alma: uma introdução. 5ºed. São Paulo: Cultrix. 2006. 212p.
Imagens: Google Images
Um Anel do Poder cuida de si mesmo, Frodo. Ele pode fugir traiçoeiramente, mas o seu detentor nunca o abandona. No máximo, ele brinca com a idéia de passá-lo aos cuidados de outra pessoa… Mas, pelo que sei, só Bilbo, em toda a história, foi além da brincadeira, tendo-o feito de fato. (Lord of the Rings, de J.R.R. Tolkien, Parte Um: A sociedade do anel)
Esta citação extraída da célebre trilogia criada por Tolkien é que abre livro O anel do poder: A criança abandonada, o pai autoritário e o feminino subjugado, da psiquiatra e analista junguiana Jean Shinoda Bolen. Em seu prefácio, a autora nos conta que tenta reconhecer o que tem sentido, em termos psicológicos, na obra O anel dos Nibelungos, de autoria do compositor alemão Richard Wagner e o que ela pode nos dizer sobre a psique humana. O texto de Bolen me chamou a atenção pelo fato de eu ter assistido há alguns anos uma versão televisiva (feita para para TV à cabo, diga-se de passagem) de O anel dos Nibelungos e assim ter me encantado com o enredo.
A versão para a TV têm uma série de pequenas falhas, mas consegue transmitir o básico da história. Porém, o livro de Bolen está mais fiel à narrativa que Wagner concebeu, por isso este post seguirá com esta fonte como referência. A história se passa na Europa central, em terras germânicas, numa época em que as divindades pagãs ainda eram cultuadas pelos povos que ali viviam, ao invés do cristianismo que se espalhava gradativamente pelo ocidente. Três belas ninfas, as donzelas do Reno, vivem nas águas deste rio e nele guardam um tesouro, o Ouro do Reno. Um anão, Alberich, o Nibelungo, deseja as belas donzelas mas é rejeitado por sua feiura. Numa de suas investidas em tentar tomar nos braços uma das donzelas, o anão cai no rio. Nas águas, Alberich vê uma luz que atiça sua curiosidade. Ele pergunta o que é, e as ninfas respondem que aquilo é o tesouro que repousa no fundo das águas do Reno. O anão desdenha do tesouro dizendo que ele não tem valor se sua única utilidade é brilhar enquanto as moças brincam na água. As donzelas o provocam dizendo que aquele que forjar um anel com o ouro do rio poderá dominar o mundo. E assim tem início uma história que também é conhecida como o Ciclo do Anel do Poder.
Bolen nos mostra como as quatro óperas que formam o ciclo trazem variações de um mesmo assunto recorrente: O poder em oposição ao amor e o efeito do poder sobre as pessoas e os relacionamentos. Através desta história de homens, deuses e heróis da mitologia germâmica, podemos perceber como casamentos são destruídos, famílias devastadas e amores se tornam inviáveis por culpa da ganânica, inveja, cobiça e traição. Para a autora:
Os mitos são metáforas, assim como os sonhos, são valiosos instrumentos que atraem a atenção do ouvinte, do sonhador ou leitor para um personagem, um símbolo ou uma situação, como se ele reconhecesse alguma coisa que sabe no íntimo. Os mitos superam o esforço da mente de divorciar a emoção da informação.
Em O anel dos Nibelungos vemos pessoas sacrificando sua intuição, suas emoções e o seu amor (lado feminino, sua anima) em prol do poder sobre seus semelhantes. Jean Shinoda Bolen nos fala que os homens se afastam da anima quando adentram o mundo patriarcal da escola e do trabalho, iniciando assim o processo de repressão e a desvalorização do feminino. Percebemos também como a reaproximação com esta anima pode também gerar bons frutos, proporcionando a integralidade da psique, representada pela serenidade e sabedoria que o deus Wotan - um dos personagens principais – mostra em determinados momentos na história.
É notável a semelhança com O Senhor dos Anéis de Tolkien. Vemos a influência da obra de Wagner em vários momentos na trilogia que se passa na Terra Média. Smeagol e Deagol disputam o anel e o vencedor com o passar do tempo se transforma em uma criatuara macabra. O mesmo ocorre com um dos irmãos gigantes, Fafner e Fasolt, em “O ouro do Reno” – primeira parte de O anel dos Nibelungos. Isto apenas para citar uma semelhança. Bolen faz um paralelo interessante entre o ditador nazista Adolf Hitler e Wotan, a divindade suprema que cobiça o anel dos Nibelungos e por isso causou sofrimento e dor a quem estava ao seu redor para conseguí-lo. Na história do anel, Wotan e sua maravilhosa Valhalla são consumidos pelas chamas. Quanto a Hitler, todos sabem o que aconteceu com ele e o seu tão idealizado Terceiro Reich, não é ?
Certamente o leitor encontrará mais semelhanças entre o Ciclo do Anel e outras histórias de ficção ou de personalidades reais de nosso tempo. É um padrão arquetípico. Mas o mais importante, tente encontrar semelhanças em sua própia vida e nas pessoas mais próximas. Como uma contadora de histórias, Bolen nos diz em seu livro que quando o poder importa mais do que tudo, haverá terríveis consequências. E é esse o recado que Wagner nos deixa em O anel dos Nibelungos.
Para saber mais:
BOLEN, Jean Shinoda. O Anel do Poder: A criança abandonada, o pai autoritário e o feminino subjugado. Tradução: Adail Ubirajara Sobral e Maria Stela Gonçalves. 1º ed. São Paulo: Cultrix. 1993. 185p.
Imagens: Google Images
Achei essa tirinha no album de um amigo no Facebook e resolvi publicar aqui hoje. Rende boas divagações, não ?
Créditos: Dresden Codak. Tradução de Alessandro Martins.